THE INTERNATIONAL ANORECTAL PHYSIOLOGY WORKING GROUP (IAPWG) RECOMMENDATIONS: STANDARDIZED TESTING PROTOCOL AND THE LONDON CLASSIFICATION FOR DISORDERS OF ANORECTAL FUNCTION
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Carrington EV, Heinrich H, Knowles CH, at al. Neurogastroenterol Motil. 2020 Jan;32(1):e13679.
Comentarista: Dra. Carla Granja Andrade – CRM SP 96756
Mestre em Cirurgia do Aparelho Digestivo pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP)
Titular do Colégio Brasileiro de Cirurgia Digestiva (CBCD)
Médica associada a American Neurogastroenterology and Motility Society (ANMS)
Médica associada a Federação Brasileira de Gastroenterologia (FBG)
Membro da Sociedade Brasileira de Motilidade Digestiva e Neurogastroenterologia (SBMDN)
Membro da Diretoria do Núcleo de Avaliação Funcional do Aparelho Digestivo (NAFAD)

CONTEXTUALIZAÇÃO E IMPORTÂNCIA DO ARTIGO
O Consenso de Londres (2019) surge para suprir uma lacuna crítica na prática clínica: a ausência de padronização internacional na interpretação da manometria anorretal.
Antes desse documento, diferentes centros utilizavam:
critérios próprios,
terminologias inconsistentes,
valores de corte variáveis,
classificações pouco reprodutíveis.
O resultado era:
baixa comparabilidade entre estudos,
dificuldades na formação,
risco de superdiagnóstico ou subdiagnóstico.
Portanto, o valor principal do artigo não é trazer um nova tecnologia, mas sim organizar o raciocínio clínico em torno da Manometria Anorretal de Alta Resolução (MAAR).
OBJETIVO CENTRAL DO CONSENSO
O documento estabelece três pilares:
Padronização do protocolo de exame
Padronização das métricas manométricas
Criação de uma classificação diagnóstica estruturada
Essa estrutura é explicitamente descrita como necessária para transformar a MAAR em um exame clínico confiável, e não apenas uma ferramenta fisiológica experimental.
ESTRUTURA CONCEITUAL DA CLASSIFICAÇÃO DE LONDRES
A classificação organiza os achados em quatro grandes domínios fisiopatológicos:
A. Distúrbios do tônus anal
Hipotonia do esfíncter anal interno
Hipertonia anal
B. Distúrbios da coordenação retoanal (defecação)
Disfunção evacuatória (padrões dissinérgicos)
Falha propulsiva retal
C. Distúrbios da sensibilidade retal
Hipossensibilidade retal
Hipersensibilidade retal
D. Distúrbios estruturais/funcionais combinados
Comentário crítico: essa organização é extremamente didática e clinicamente aplicável, pois obriga o examinador a interpretar o exame por mecanismos fisiopatológicos e não apenas por números isolados.

PONTOS FORTES DO ARTIGO
Padronização internacional real
O consenso foi elaborado por especialistas de múltiplos países, com metodologia Delphi e rodadas sucessivas de concordância — o que confere alta legitimidade científica.
Linguagem clínica clara
Termos como:
“falha propulsiva”
“disfunção evacuatória”
“hipossensibilidade retal clinicamente relevante”
aproximam o exame da prática clínica real e afastam da leitura puramente técnica. O documento enfatiza que: alterações manométricas isoladas não devem ser interpretadas sem correlação clínica. Isso é extremamente relevante, pois muitos laudos de MAAR no mundo ainda geram diagnósticos artificiais.
LIMITAÇÕES IMPORTANTES
Fragilidade dos valores de normalidade
O próprio consenso reconhece que:
muitos valores derivam de amostras pequenas,
há grande variabilidade entre equipamentos,
sexo e idade impactam significativamente.
Ou seja: a classificação organiza o raciocínio, mas não resolve completamente o problema da referência populacional.
Dependência extrema da técnica do exame
O documento pressupõe que:
o exame foi bem realizado,
o paciente compreendeu as manobras,
a equipe é treinada.
Na prática real, sabemos que uma parcela dos exames apresenta qualidade técnica subótima. Logo, a aplicabilidade clínica depende diretamente da qualidade do laboratório.
Não incorpora completamente sintomas e desfechos
Apesar de mencionar correlação clínica, a classificação ainda é fundamentalmente fisiológica, e não orientada por:
impacto terapêutico,
resposta ao biofeedback,
prognóstico clínico.
IMPACTO CLÍNICO REAL
Apesar das limitações, o impacto foi enorme:
Melhorou a qualidade dos laudos
Facilitou ensino em cursos e treinamentos
Aumentou reprodutibilidade científica
Tornou possível comparar estudos internacionais
Serviu de base para” guidelines” posteriores
CONCLUSÃO CRÍTICA
Este não é um artigo revolucionário em fisiologia, mas é um marco organizacional essencial para transformar a manometria anorretal em ferramenta clínica madura e confiável.











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