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UPDATES TO THE MODERN DIAGNOSIS OF GERD: LYON CONSENSUS 2.0

  • Foto do escritor: Zmote Comunicação
    Zmote Comunicação
  • 9 de jan.
  • 3 min de leitura


NAFAD – NÚCLEO DE AVALIAÇÃO FUNCIONAL DO APARELHO DIGESTIVO

ARTIGO COMENTADO

 

Comentarista: Dra. Carla Granja Andrade – CRM SP 96756

Mestre em Cirurgia do Aparelho Digestivo pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP)

Titular do Colégio Brasileiro de Cirurgia Digestiva (CBCD)

Médica associada a American Neurogastroenterology and Motility Society (ANMS)

Médica associada a Federação Brasileira de Gastroenterologia (FBG)

Membro da Sociedade Brasileira de Motilidade Digestiva e Neurogastroenterologia (SBMDN)

Membro da Diretoria do Núcleo de Avaliação Funcional do Aparelho Digestivo (NAFAD)




 

UPDATES TO THE MODERN DIAGNOSIS OF GERD: LYON CONSENSUS 2.0

Gyawali CP, Yadlapati R, Fass R, et al. Updates to the modern diagnosis of GERD: Lyon consensus 2.0. Gut. 2024 Jan 5;73(2):361-371.

 

O Consenso de Lyon 2.0, publicado em 2023, representa um marco relevante na evolução do diagnóstico moderno da doença do refluxo gastroesofágico (DRGE). Mais do que uma simples atualização de critérios, o documento propõe uma mudança conceitual importante, ao introduzir a noção de “DRGE acionável”, reforçando a necessidade de integrar sintomas, achados objetivos e contexto clínico antes de decisões terapêuticas de longo prazo ou intervenções irreversíveis.

DO SINTOMA AO DADO OBJETIVO: UM AVANÇO NECESSÁRIo

Um dos principais méritos do Lyon 2.0 é o reposicionamento do papel dos sintomas. Embora reconheça a importância dos sintomas típicos (pirose, regurgitação e dor torácica esofágica), o consenso deixa claro que sintomas isolados não são suficientes para confirmar DRGE. Essa abordagem corrige décadas de superdiagnóstico, especialmente em pacientes com sintomas extraesofágicos, nos quais a associação causal com refluxo é frequentemente fraca ou inexistente.

Ao diferenciar sintomas com alta, intermediária ou baixa probabilidade de relação fisiopatológica com refluxo, o documento contribui para uma prática mais racional, reduzindo uso empírico prolongado de IBP e encaminhamentos inadequados para terapias invasivas.

 

 

 

 

A REDEFINIÇÃO DO QUE É “DRGE COMPROVADA”

Talvez a mudança mais impactante do Lyon 2.0 seja o reconhecimento da esofagite erosiva grau B de Los Angeles como evidência conclusiva de DRGE, algo que não era aceito no consenso original. Essa decisão é sustentada por dados robustos de pHmetria prolongada e pH-impedanciometria, que demonstram carga ácida semelhante entre os graus B e C.

Na prática clínica, essa redefinição simplifica o fluxo diagnóstico, reduz a necessidade de exames adicionais em pacientes com endoscopia típica e aumenta a segurança na tomada de decisão terapêutica.

 

 “DRGE NÃO COMPROVADA” VERSUS “DRGE COMPROVADA”: UMA VIRADA DE CHAVE CONCEITUAL

Outro ponto de destaque é a clara separação entre pacientes com DRGE não comprovada e aqueles com DRGE previamente comprovada. Essa distinção não é apenas semântica — ela define estratégias diagnósticas completamente diferentes:

  • Em pacientes sem evidência prévia de DRGE, o consenso prioriza exames off IBP, com destaque para a pHmetria sem fio prolongada.

  • Já nos pacientes com DRGE comprovada e sintomas persistentes, a avaliação deve ser feita on IBP, utilizando pH-impedanciometria para identificar refluxo refratário clinicamente relevante.

Esse modelo evita erros comuns, como interpretar exames normais realizados sob supressão ácida em pacientes nunca adequadamente caracterizados.

 

VALORIZAÇÃO DA FISIOLOGIA ESOFÁGICA MODERNA

O Lyon 2.0 consolida o papel de métricas fisiológicas avançadas, como:

  • Tempo de exposição ácida (AET) com limiares mais bem definidos,

  • Número total de episódios de refluxo,

  • Impedância basal noturna média (MNBI) como marcador indireto de integridade mucosa.

Por outro lado, o consenso tem o mérito de retirar parâmetros com baixo desempenho clínico, como o índice de onda peristáltica pós-refluxo (PSPW), reconhecendo sua utilidade mais acadêmica do que prática. Essa postura crítica fortalece a aplicabilidade do documento no mundo real.

LIMITAÇÕES E DESAFIOS DE IMPLEMENTAÇÃO

Apesar de seus avanços, o Lyon 2.0 enfrenta desafios importantes. Muitos dos métodos recomendados — como pHmetria sem fio de 96 horas e análise detalhada de impedância — não estão amplamente disponíveis, especialmente em países de média renda. Além disso, a interpretação correta desses exames exige treinamento especializado, o que pode limitar sua adoção fora de centros de referência.

Outro ponto sensível é que, embora o consenso busque maior especificidade, ainda existe uma zona cinzenta significativa nos casos com achados borderline, exigindo julgamento clínico experiente.

 

IMPACTO PRÁTICO E MENSAGEM FINAL

O Consenso de Lyon 2.0 sinaliza claramente uma transição: menos empirismo, mais fisiologia; menos rótulos, mais precisão diagnóstica. Ele não propõe algoritmos rígidos, mas sim uma estrutura conceitual que favorece a personalização da investigação e do tratamento.

Para o clínico atento, o Lyon 2.0 não é apenas um guia diagnóstico — é um convite à reflexão crítica sobre como, quando e por que diagnosticamos DRGE, evitando tanto o subdiagnóstico quanto o tratamento excessivo.




Figura: Critérios diagnósticos da DRGE segundo o Consenso de Lyon 2.0 (tradução e adaptação).

A figura resume a integração entre endoscopia e testes fisiológicos na definição de DRGE conclusiva, limítrofe ou excluída, diferenciando pacientes com DRGE não comprovada e comprovada.

 
 
 

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